O Julgamento de Gargung

Por: Jota!

Caminhando de cidade em cidade, um velho pregador percorria os reinos levando uma solene advertência. Por onde passava, sua voz ecoava pelas ruas: "Cuidado com o velho Gargung! Ele está à procura dos maus e dos arrogantes! Mudem de vida enquanto há tempo, pois ele traz consigo a cobrança. Quando ele passar por aqui, vai pesar cada um de vocês na balança e executar a sentença!"

A lenda contava que existia uma regra sagrada: se o pregador passasse por uma cidade e não encontrasse bondade ou disposição para mudança nos seus líderes, o temível Gargung surgiria para julgar e punir o local.

Ao chegar a uma nova cidade, o velho reuniu o povo na praça central e pregou sua mensagem. As pessoas simples aceitaram bem as palavras, tocaram seus corações e decidiram mudar de atitude. Contudo, ao sair do povoado, o pregador passou em frente à luxuosa propriedade do prefeito, um homem extremamente rico, orgulhoso e implacável chamado Bilvin.

Ao ver o pregador na sua porta, o prefeito esbravejou com desprezo: "Ei, velho! Vá embora da minha cidade e pare de assombrar o meu povo! Seu tolo, que loucura é essa de Gargung?! Hahaha, essa é boa! Fora daqui, seu velho maluco!"

O pregador parou, olhou com serenidade e alertou: "Meu filho, existem forças neste mundo que você não conhece. Tenha respeito! Eu lhe digo: mude agora suas atitudes, ou você sofrerá e fará inocentes sofrerem!"

"Eu já disse que não tenho tempo para suas loucuras!" — gritou Bilvin, empurrando o pregador com força no chão.

Os capangas do prefeito, que estavam ao redor, caíram na gargalhada e fizeram chacota do homem. O pregador levantou-se devagar, bateu a poeira das vestes, encarou o prefeito nos olhos e disse: "Pois bem... você escolheu o seu lado. Que o Pai das Luzes tenha misericórdia de vocês. Daqui a uma semana, o impiedoso Gargung virá cobrar a dívida."

"Hahaha! Que venha! Estaremos preparados, velho tolo!" — debochou o prefeito.

No segundo seguinte, diante de todos, o pregador simplesmente desapareceu no ar. O riso de Bilvin congelou. Horrorizado e preocupado, ele percebeu tarde demais que se tratava de um evento sobrenatural.

Os dias se passaram em um clima de apreensão. Apavorado, o prefeito reuniu todos os seus capangas e o delegado da cidade, armando todos até os dentes. No dia marcado pelo pregador, ficaram em prontidão no pátio da propriedade.

De repente, o tempo mudou drasticamente. O céu escureceu e um ar gélido e sufocante tomou conta do pátio. Diante deles, rasgando a névoa, apareceu uma horrenda criatura: tinha o corpo de peixe e a cabeça de vaca, flutuando no ar enquanto segurava um livro antigo e uma pena gigantesca.

Com um sorriso macabro que revelava dentes afiados, a criatura farejou o ar e rugiu: "Lamba, tamba... sinto cheiro de agonia! Hahaha! O velho pregador falhou em te converter, prefeito... Que bom! Já fazia tempo que eu não julgava uma alma tão podre!"

O delegado, tremendo da cabeça aos pés, gritou para o prefeito: "Meu Deus! O que você fez, seu idiota?! Que coisa horrorosa é essa, Bilvin?! Isso é sobrenatural!"

"Cale a boca, seu verme! Atirem nele!" — ordenou Bilvin, em pânico.

Os capangas descarregaram suas armas contra a criatura, mas as balas atravessavam seu corpo flutuante como se ele fosse feito de água. Gargung deu uma gargalhada ensurdecedora: "Todos vocês virão comigo e vão me servir no abismo! Desta vez o pregador perdeu!"

Em puro desespero, o prefeito caiu de joelhos e gritou para os céus: "Velho, socorro! Me ajude!"

A criatura aproximou-se lentamente, projetando sua sombra negra sobre eles, e declarou com voz cavernosa: "Não adianta, seu idiota! Você teve a sua chance e a rejeitou. Agora você já está no meu reino, e ninguém pode te salvar aqui!"

O prefeito e seus homens arrependeram-se amargamente do orgulho e das zombarias, mas já era tarde demais para evitar a sentença de Gargung.

A arrogância fecha os ouvidos do homem para os avisos da sabedoria, levando-o inevitavelmente à própria perdição.